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NOSSA HISTÓRIA – Processo de Transição da feira-livre do Domingo para a Segunda

Dois anos após a criação da Paróquia de São Félix de Camocim, a Vila inicia o ano celebrando com já conhecida euforia a Festa de São Félix, seu padroeiro. O crescimento do lugar é notável, levando em consideração a localização geográfica que permite a interligação com vários municípios e a terra no ponto certo para cultivo do café. Uma feira-livre, realizada aos domingos, lançada na rua principal de Camocim é a prova da ascensão dessa comunidade. Um misto mercado ao céu aberto, que reúne elementos de primeira necessidade para alimentação, a exemplo de carne, verduras, legumes, frutas e acessórios dos mais variados feitos como candeeiros, arreios, “arupemas” (peneiras), balaios, botinas, perfumaria e até vestimentas. Casas comerciais, vendas e mercearias complementam a economia em construção da futura cidade Camocim.

A Santa Missa dominical se confundia com os ruídos de uma feira em andamento: os pregões dos vendedores, a conversa de compadres e comadres, um grito solitário de um bêbado, mas a celebração seguia seu curso, com assistência garantida. No entanto os barulhos da movimentação externa se faziam notar, de certa forma privando o culto do essencial silêncio devoto. Padre Hermínio já levantara uma questão que não era nova na comunidade, que seria a mudança definitiva do dia da feira-livre. “É preciso celebrar com mais entrega e reserva o Dia do Senhor! alertava o pároco. Essa advertência se une a um desejo não recente com apoio crescente do comércio local para que esse evento fosse mudado para a segunda-feira. O ano seguia o curso e a Paróquia vivencia com conhecido louvor a Semana Santa. Toda a programação, desde os Ramos é acompanhada com carinho pelos paroquianos, no entanto, o Domingo da Páscoa, que celebra a Ressurreição do Cristo seria dia de feira na Vila. Padre Hermínio se encontra com uma representação de comerciantes locais para tratar do assunto. “Sabemos da importância para a nossa economia desta feira, mas também temos em mente que o Domingo deve ser um dia de guarda, das famílias e principalmente neste domingo, em que celebramos o Cristo Ressuscitado! A minha proposta é que a feira seja deslocada para o dia posterior ao domingo, para a segunda”, sugere o padre. Os comerciantes louvam a ideia, motivando o envio de uma petição com um abaixo-assinado anexado à Prefeitura de Bezerros.

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ÍNTEGRA DA PETIÇÃO:

“Ilustríssimo Senhor Prefeito do Município de Bezerros

Os abaixo-assinados habitantes da Vila de Camocim deste Município, convencidos que nada obsta-lhes mais o progresso de sua economia e dos seus interesses espirituais, do que a realização da feira semanal nos dias de domingo, como, outrossim, de que nenhum prejuízo poderia advir para a Vila do Distrito, assim como para o Município a que pertence a realização da dita feira em outro qualquer dia da semana; considerando que esse é um postulado legítimo da população católica desta Vila que deseja guardar religiosamente o Dia do Senhor, livre e espontaneamente vêm pedir a Vossa Senhoria, se digne transferir a feira de Camocim para a segunda-feira de cada semana, dia em que, segundo o sentir geral da população, mais se consultam os interesses do comércio do povo e do Município. Nestes termos, pedem benigno deferimento. São Félix de Camocim, aos 5 de abril de 1942. Seguem as assinaturas em número de 101 – e de todos os homens de responsabilidade do Distrito.”

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Não surpreendeu a todos, principalmente a Padre Hermínio o indeferimento do requerimento: estava mantida a feira aos domingos! O então prefeito Nilzo Lapenda somente lançava água quente na fervura de diferenças existentes entre Camocim e Bezerros.

A FORÇA DE UM “NÃO”

O “não” do Chefe do Executivo para as pretensões da comunidade católica de Camocim e do comércio de transferir definitivamente a feira-livre do domingo para a segunda-feira aprofundou divergências entre Município e Distrito. O vigário não se deu por derrotado e resolveu apelas para as Autoridades Estaduais que em face do pedido solicitam informações ao prefeito sobre os motivos em não atender ao pedido. Bezerros apresenta suas justificativas que, de contraditórias, aumentam o interesse do Estado em verificar de perto o fato. A imprensa estadual se torna mais uma “trincheira” da qual se servem personalidades e o próprio padre Hermínio para “elucidar a verdade dos fatos à luz da transparência”. Vem no Jornal do Commercio na edição de 19 de abril de 1942, na “Secção Religiosa”, um artigo do pároco de Camocim sob o título “Camocim de Bezerros e a Sua Feira aos Domingos”. Na edição da tarde da “Folha da Manhã”, do dia 21 de abril de 1942, vem outro artigo forte do Padre Batista Cabral – com largo prestígio de Magistério Estadual e sobretudo com o seu coração ardente de sacerdote – com o título “Camocim de Bezerros”. Ambas publicações apresentam argumentos, entre os quais, o desejo explícito dos comerciantes e feirante locais e os benefícios da alteração do dia da feira-livre para a segunda-feira.

O Estado ordena então uma sindicância no Município de Bezerros, para se averiguar coisas sobre a Administração Municipal que culmina com a demissão do prefeito Nilzo Lapenda, substituído por Romeu Góis, funcionário da Secretaria do Interior. O novo prefeito já assume o cargo com instruções para resolver a questão de Camocim, obviamente favorável, tendo em vista que o Padre Hermínio de Queiroz já fizera diversas tratativas em reuniões com Romeu Góis e o Secretário da Justiça, Dr. Arnóbio Tenório. Após uma nova consulta feita aos comerciantes do Distrito com a aprovação da maioria, foi alterada de modo definitivo o dia da feira-livre da Vila de Camocim, que passou, então, a ser na segunda-feira. Para coroar o feito, Padre Hermínio, com total apoio do novo gestor do Município, marca a inauguração da feira-livre das segundas para 07 de setembro de 1942, que coincide com o dia em questão.

FESTA

Seguem linhas, extraídas do Livro de Tombo Nº1 da Paróquia de São Félix de Cantalice que transbordam o significado deste marco:

“A Vila de Camocim no Município de Bezerros, sede da nova Paróquia de São Félix deste Arcebispado, realizou imponentes festas no dia 07 de setembro em homenagem à grande data da Independência do Brasil e ao mesmo tempo em regozijo pela passagem definitiva de sua feira semanal do domingo para a segunda-feira. O povo católico de Camocim, à frente o seu vigário, prestou merecidas homenagens às autoridades estaduais e municipais, pelo gesto altamente cristão que tiveram ao atender com solicitude ao desejo legítimo de toda aquela população de gente religiosa e boa”. (…)

(…)”Houve Missa Solene em Ação de Graças, da qual foi celebrante o Padre José Florentino, Vigário de Bezerros e ministros os padres Severino Ottoni e João Monteiro Tabosa, respectivamente coadjutor de Bezerros e pároco de São Joaquim”.

(…)”Ao Evangelho, o Padre Tabosa, em vibrante oração cívica-religiosa, exaltou a grande data nacional e exultou de entusiasmo e alegria com os católicos de Camocim, engrandecendo e explicando o fato significativo (tanto quanto possa ser para um povo cristão) da mudança da feira do Dia do Senhor, para outro dia útil da semana.”

(…)”Pode-se dizer que a vitória alcançada é uma vitória que se afirma cada vez mais em face das vantagens que daí decorreram, para o Município, para o comércio, para os agricultores e até para aqueles mesmos despeitados que tanto se opuseram à transferência e que já hoje se acham vencidos pela evidencia das coisas!”

PESQUISA: Jornalista José Batista Neto

LIVRO DE TOMBO Nº01 Fls.: 31-31V – Paróquia de São Félix de Cantalice