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MAZURCA DO MONDÉ

 

Grande Roda de Mazurca: Tradição, Resistência e Celebração Popular

Marcada pelo som do pandeiro, das pisadas firmes no chão e do coro vibrante de vozes, a Grande Roda de Mazurca — também conhecida por muitos como “Mazuca” — representa muito mais do que uma manifestação cultural. Trata-se de uma celebração coletiva que atravessa gerações, reunindo pessoas de todas as idades em torno da música, da dança e da memória ancestral.

Na comunidade quilombola de Mondé dos Cabrais, localizada no município de Camocim de São Félix, Agreste Central de Pernambuco, a 125 km do Recife, essa tradição encontra solo fértil para se manter viva. Lá, o morador Jaime Tiago dos Santos revive, a cada festejo junino, o legado de sua família. Com orgulho, ele manuseia o pilão centenário, há mais de 120 anos em posse da família, utilizado para pilar milho e café que compõem os quitutes típicos das festividades. “É mazuca, não mazurca”, faz questão de corrigir, relembrando que a dança é uma criação genuína de seu pai, Tiago José dos Santos — um homem simples, sem qualquer instrução formal, mas com profundo senso artístico e comunitário.

A origem da Mazurca em território camocimfelicense remonta ao período colonial, quando o Agreste pernambucano era palco de resistência à opressão imposta pelos engenhos da Zona da Mata. Escravizados fugidos encontraram refúgio nas matas e nascentes da região, onde se uniram a comunidades indígenas ali estabelecidas. Dessa convivência, nasceu uma rica fusão de saberes, expressões e práticas culturais. Camocim de São Félix, ou Camocimtuba — como era inicialmente chamada —, tornou-se símbolo desse entrelaçamento de identidades, mesmo sob a exploração da mão-de-obra escrava pelos fazendeiros locais que cultivavam café e cana-de-açúcar.

A dança que hoje conhecemos como Mazurca é uma variante do coco, ritmo ancestral entoado por indígenas e negros durante o trabalho coletivo, especialmente no ato de quebrar e descascar o coco. A estrutura da Mazurca é marcada pela percussão dos pandeiros, palmas cadenciadas e pisadas compassadas que formam a base rítmica da dança. Enquanto um integrante da roda puxa um mote, outro responde em versos improvisados, criando uma narrativa oral espontânea. Ao fundo, o som da sanfona garante que o forró — essência do Nordeste — se mantenha presente, animando os intervalos da dança e integrando ainda mais o público ao momento.

Mais do que um espetáculo folclórico, a Mazurca é um símbolo de resistência cultural, de identidade quilombola e de celebração da ancestralidade. Sua permanência, renovada a cada festa e a cada roda, é a prova de que a cultura popular, quando enraizada na comunidade, torna-se indestrutível frente ao tempo e às adversidades.